Apresentação

Há uma nova realidade na USP. Em 2020, a porcentagem de novos alunos da universidade que vêm da rede pública chegou a 47%; no ingresso de 2021 e nos anos seguintes, a reserva em cada curso e turno deverá atingir 50%, segundo a Comissão de Acompanhamento da Política de Inclusão, da Pró-Reitoria de Graduação/USP. 

Em 2017, o Conselho Universitário aprovou a reserva de vagas para alunos de escolas públicas e autodeclarados pretos, pardos e indígenas (PPIs), o que traz mais diversidade, novos olhares, saberes e narrativas para o âmbito acadêmico e, por consequência, educacional em geral. Com efeito, o perfil da comunidade uspiana passa por um processo de alteração profunda que traz em seu bojo desafios inéditos, mas também gera novas potencialidades, uma vez que a diversidade humana amplifica as chances de geração de ideias e ações inovadoras em prol de uma sociedade mais justa, sustentável e democrática.

As novas incertezas trazidas pela pandemia de um novo tipo de coronavírus parecem evidenciar, tornar sensíveis e agudizar questões candentes sobre desigualdades sociais, sexismo, racismo, xenofobia, exclusões múltiplas (como a social e, em decorrência, a digital) por meio de protagonismos variados mas sobretudo dos relacionados a “todas as identidades agredidas nos mais diferentes espaços geográficos”, como lembra Conceição Evaristo (EVARISTO: 2018).

Os protestos antirracistas que tiveram como epicentro os Estados Unidos e depois se expandiram a várias partes do planeta, em torno do slogan “Vidas Negras Importam”, a derrubada e retirada de monumentos e estátuas do espaço público, as contestações sobre as políticas sócio-ambientais desastrosas, as denúncias sobre as fragilidades de populações sem teto, indígenas, quilombolas e refugiadas são  evidências do quanto é premente reconsiderar instituições e relações e pensar de forma mais sensível e inclusiva a comunidade discente de nossa universidade: uma juventude hiperconectada e atenta a esses e outros desafios globais cujos impactos locais se concretizam, de muitas maneiras, na realidade cotidiana dos jovens que hoje ingressam na USP. 

De outra parte, os tempos atuais fizeram emergir discussões e revisões cada vez mais acirradas. Internamente à universidade, a diversidade não se expressa somente no ingresso e no perfil demográfico e socioeconômico dos estudantes mas também na transformação do corpo discente em sujeito, obrigando, com seus coletivos ou individualmente, a uma revisão e reformulação  de programas, leituras, modos de se comportar e de se colocar frente às relações estruturantes da universidade, bem como nas formas de interação entre ciência e uma ecologia de saberes e entre academia e movimentos sociais/militância.

Há que se destacar ainda a importância dos movimentos sociais, inclusive o estabelecimento e/ou fortalecimento de diversas ações articuladas a partir do ciberespaço. Assim, vimos emergir nos últimos anos novas estratégias de lutas de populações negras e indígenas, mulheres, pessoas com deficiência, grupos sociais tradicionais, do campo e das cidades, e sua força de reivindicação dos quais a própria alteração nas estruturas da universidade é decorrente. Resulta, sem dúvida, de processos de resistências, mobilização e conquistas de grupos subalternizados historicamente que já vêm acontecendo há décadas e que, no caso particular das universidades brasileiras, canalizaram para políticas de inclusão. As cotas nos processos de ingresso, nos programas de graduação e de pós-graduação, embora em níveis distintos, repercutem acentuadamente no perfil demográfico da instituição como um todo.   

Um exemplo importante de inclusão, entre outros, é o do Programa de Pós-Graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades  com Política de Ações Afirmativas; vinculado ao NAP Diversitas, destinou, em 2020, 80% das vagas para candidatas(os) autodeclaradas(os) negras(os), pessoas com deficiência, pessoas trans, indígenas e pessoas em situação de refúgio, apátridas e portadoras de visto humanitário (em 2019, havia designado 50% das vagas). Ainda no âmbito institucional, na área das Humanidades, aponta-se a mobilização em torno da temática de cotas desde 2013, com a criação da Comissão Permanente de  Ações  Afirmativas  do Programa de Antropologia, e no Programa de História Social desde 2017.

Em 2020, a Internet comercial completou 25 anos de funcionamento no Brasil, o que suscita debates sobre a universalização do acesso à rede e tal acesso como um direito humano em si e que se constitui como condição sine qua non para assegurar outros DHs na contemporaneidade. O serviço e acesso à rede mundial de computadores, como fenômeno planetário e definitivo nessas primeiras décadas do século XXI, não apenas cresceu exponencialmente como também se diversificou e mudou a forma como as pessoas se relacionam nas diferentes esferas da vida. As profundas transformações deste início de século, advindas dos avanços da Indústria 4.0 (marcada pela ultravelocidade, hiperconectividade e interoperabilidade), têm impactos globais, exigindo, portanto, um olhar internacionalista atento às complexas articulações expressas no nível local. 

Deste modo, torna-se crucial o papel das Ciências Humanas em propor reflexões e análises acerca desse movimento geral de virtualização que altera de maneira radical as concepções de tempo, espaço, trabalho e sociabilidades. Tal fenômeno, conforme explicou Pierre Lévy, “afeta não apenas a informação e a comunicação mas também os corpos, o funcionamento econômico, os quadros coletivos da sensibilidade ou o exercício da inteligência. A virtualização atinge mesmo as modalidades de estar junto, a constituição do ‘nós’: comunidades virtuais, empresas virtuais, democracia virtual… Embora a digitalização das mensagens e a extensão do ciberespaço desempenhem um papel capital na mutação em curso, trata-se de uma onda de fundo que ultrapassa amplamente a informatização” (LÉVY: 2011, 11).

Assim sendo, se, por um lado, as tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC) modificam o modo pelo qual as pessoas trabalham, estudam, pesquisam e se relacionam, por outro, muitas pessoas ainda estão excluídas (integral ou parcialmente) desse processo. Neste contexto, evidencia-se a necessidade e urgência em discutir a exclusão digital em seus múltiplos aspectos, consequências e propostas de enfrentamento a tal problema de modo a ampliar o acesso à Internet e assegurar a consequente democratização virtual. 

Tendo em vista a relevância que o tema e a premência de tais questões assumem  no contexto do isolamento social planetário imposto pela pandemia do COVID-19, quando de maneira instantânea e inédita foram alteradas atividades, rotinas e modos de ser e trocar próprios às comunidades acadêmicas/universitárias em todo o mundo, se, em um primeiro momento houve a virtualização total da vida acadêmica, o prognóstico ainda é incerto, embora os esforços científicos mundiais para a fabricação de vacinas sejam continuados. Desta maneira, em  diversos setores de atividades, inclusive nas IES, já são considerados modelos híbridos, virtuais e presenciais, de trabalho, estudo e pesquisa a serem estabelecidos no médio prazo e, possivelmente, alterando algumas atividades e rotinas acadêmicas em definitivo. 

Neste contexto, e atenta à importância em envolver professores, estudantes e pesquisadores de diferentes departamentos em agendas interdisciplinares, a FFLCH firmou acordo com o Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), ligado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), com o objetivo de fortalecer a possibilidade de professores, alunos e pesquisadores da Faculdade promoverem agendas de pesquisa e estudos e análises acerca das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) no Brasil. O NIC.br mantém o Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (CETIC.br), dedicado à elaboração de estudos, relatórios e produção de bancos de dados de pesquisas realizadas sobre o tema das TIC. 

Por meio desse acordo, portanto, será possível acessar as bases de dados sobre a desigualdade digital no Brasil, por exemplo, e como e em quais condições os brasileiros acessam a internet no país. Será possível ainda produzir novos indicadores, desenvolver estatísticas e sistematizar a análise de dados e informações estratégicas sobre o desenvolvimento da internet, assim como estudar os impactos socioeconômicos das tecnologias de informação e comunicação no Brasil.

Os NAPs proponentes congregam docentes e pesquisadores altamente qualificados, com competências complementares e que atuam em diversas áreas do conhecimento. Assim sendo, tal reunião permite equacionar e dimensionar esse quadro de diversidade e perceber como cada um dos participantes (docentes, pesquisadores, estudantes e lideranças dos movimentos sociais) enxerga e vive as mudanças em curso, expandindo com isso os ganhos da interdisciplinaridade e da internacionalização, diretrizes da USP como suporte à cooperação acadêmica em matéria de ensino, pesquisa, cultura e extensão universitária. 

A proposta de convites direcionados a representantes de universidades dentro e fora do Brasil no relato de experiências e histórias de transformações de suas instituições vis-a-vis os movimentos sociais e, entre eles, os promovidos pelos  estudantes, aporta um referencial importante para entender desafios e potencialidades a partir de sua aprendizagem pregressa e atual. Segundo a Unesco, o cidadão global do século XXI é aquele que consegue  reconhecer os desafios colocados em sua comunidade e compará-los a outras realidades e experiências, de modo a conectar, interpretar e transformar sua realidade local a partir de um olhar cosmopolita e atento às questões e desafios globais. (UNESCO: 2015). No que se refere aos recentes desafios colocados aos jovens, de acordo com as Nações Unidas:

A crise da COVID-19 está causando um efeito devastador sobre a educação e a formação de jovens. Desde o início da pandemia, mais de 70% dos(as) jovens que estudam ou combinam os estudos com o trabalho foram adversamente afetados(as) pelo fechamento de escolas, universidades e centros de treinamento. (ONU Brasil: 2020)

Juventude e COVID-19, o recente relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e Organização das Nações Unidas (ONU), sinaliza fortes impactos imediatos não apenas na educação, mas também nos empregos, direitos e bem-estar mental de jovens do mundo inteiro.  De acordo com o documento, ao menos que haja uma ação imediata, a população mundial entre 18 e 29 anos sofrerá de maneira severa e no longo prazo os efeitos da atual crise.  Vale ressaltar que o relatório ainda adverte que tais efeitos são ainda mais agudos nas juventudes dos países de baixa renda. (OIT:ONU:2020) 

Destarte, a reunião dos NAPs proponentes deste evento apresenta-se como estratégica. Tanto as transformações verificadas no perfil discente uspiano quanto as mudanças advindas do contexto de virtualização da vida colocam a exigência de um letramento digital coletivo, que dê conta das novas rotinas acadêmicas, e trazem também, em sua articulação, a necessidade de uma análise cuidadosa de como o processo de transformação já em curso na USP é impactado por esta nova realidade. 

Com efeito, os NAPs responsáveis pela presente proposta reúnem a expertise necessária para o enfrentamento de tais desafios, pois têm lidado diretamente com questões relativas à inclusão, ao ingresso e à permanência de estudantes.  Vale ressaltar que os NAPs proponentes vivenciam há alguns anos um processo de acúmulo de reflexões, práticas e experiências inovadoras que, neste momento, tornam-se especialmente estratégicas para a compreensão dos desafios colocados e, por conseguinte, a formulação de soluções multifacetadas  e que ajudem a garantir os direitos de nossas juventudes. 

Reunindo interlocutores diversos – discentes, docentes, pesquisadores e líderes de movimentos sociais e das juventudes -, a proposta é promover um ciclo de debates e palestras acerca das transformações pelas quais passam diversas universidades em diferentes partes do Brasil e do mundo, especialmente visando consolidar as trocas de experiências e saberes em torno dos temas em foco, tendo no horizonte a construção de redes e a elaboração conjunta de projetos relacionados à educação, à pesquisa, à interação com a sociedade, ao fortalecimento democrático, ao direito à memória, à descolonização do pensamento e à valorização das epistemologias do Sul. Neste sentido, vale destacar a constelação de horizontes epistemológicos constituídos a partir do pensamento crítico produzido por sujeitos subalternizados. Ao formularem questionamentos radicais, que deslindam parcialidades, limites e equívocos dos conhecimentos produzidos no Norte Global, tais pensadores  colocaram em xeque a geopolítica do conhecimento.

Ainda no que se refere às epistemologias do Sul, é também significativo atentar à situação atual dos direitos humanos, conforme assertiva de Santos & Martins: “o impasse que os direitos humanos atualmente atravessam enquanto linguagem capaz de articular lutas pela dignidade é, em larga medida, um espelho da exaustão epistemológica e política que assombra o Norte Global.” (SANTOS & MARTINS: 2019, p. 9) As epistemologias do Sul são, portanto, as vias pelas quais será possível buscar a superação desse impasse na contemporaneidade. 

Conforme detalhado mais adiante, os NAPs proponentes reúnem pesquisadores sêniores e em início de carreira, além de estudantes de graduação e pós-graduação,  que há anos se dedicam a radiografar e compreender a produção de cientistas e pensadores africanos, afrodiaspóricos, indígenas, árabes, indianos dentre outros oriundos do Sul Global e cujos trabalhos se debruçam a analisar os principais desafios da atualidade e os modos variados pelos quais tais problemas se interconectam e retroalimentam. Neste sentido, cita-se uma questão icônica da contemporaneidade, qual seja: a urgência em enfrentar os desafios socioambientais, a partir de uma ótica integrativa e holística, capaz de criar uma nova visão que contemple a interdependência entre humanidade e natureza (KRENAK: 2019). Os desafios que ora enfrentamos tornam evidentes a necessidade e a urgência de um esforço consensual em prol de um meio ambiente são e sustentável, concebido como direito humano imprescindível para o futuro da vida humana no planeta, logo, também fundamental para assegurar outros DHs neste início de milênio. 

Ao congregar docentes com competências complementares, os NAPs proponentes intensificam e aprofundam suas perspectivas interdisciplinares e colocam sua expertise à disposição de questões globais cujos impactos, especialmente  na comunidade uspiana e nas juventudes do Brasil e do mundo, precisam ser analisados coletivamente de maneira a ensejar sinergias e soluções para os grandes desafios que ora encaramos.  O conjunto de cientistas, docentes e discentes reunidos nos NAPs Brasil África, Diversitas, CEstA e NAPPLAC, por fim, enfatiza a relevância da dialogicidade, essência da prática educacional teorizada por Paulo Freire e bell hooks, entre outros autores, e expressa na prática de docência, pesquisa e extensão dos NAPs proponentes, conforme é possível observar  nos descritivos a seguir. 

Referências bibliográficas

EVARISTO, Conceição. Apresentação [orelha] In: DAVIS, Angela. A liberdade é uma luta constante.  São Paulo: Boitempo, 2018. 

hooks, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. 2ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 2017.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Cia das Letras, 2019.

LÉVY, Pierre. O que é o virtual? São Paulo: Ed. 34, 2011.  

OIT; ONU et al. Youth and COVID-19: Impacts on Jobs, Education, Rights and Mental Well-being. Global Survey Report, 2020. Disponível em: < https://www.ilo.org/global/topics/youth-employment/publications/WCMS_753026/lang–en/index.htm, acesso em 13/08/2020. 

ONU Brasil. Pandemia interrompe educação de mais de 70% dos jovens no mundo. Disponível  em: < https://nacoesunidas.org/pandemia-interrompe-educacao-de-mais-de-70-dos-jovens-no-mundo/>, acesso em 13/08/2020. 

SANTOS, Boaventura de Sousa; MARTINS, Bruno Sena (org.) O pluriverso dos Direitos Humanos: a diversidade das lutas pela dignidade. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019. 

UNESCO. Educação para cidadania global: preparando alunos para os desafios do século XXI. Brasília: Unesco, 2015.